INFOXICAÇÃO


Entrevista a Jornalista Márcia Casali (Brasília):

O crescimento da internet está levando pessoas a refletirem sobre sua relação com o computador ou intoxicados de informação. O estresse causado pela hiperconectividade e a sensação de estar sempre desatualizado, causa a chamada infoxicação.

Quais os sintomas e como se livrar do mal?

Então, doutor Uriel, li que a infoxicação envolve pessoas que querem estar atualizadas e não deixam do computador, lêem tudo que podem e ainda acham que precisam ler mais. Na verdade não conheço pessoas assim. Conheço pessoas de várias idades viciadas em internet, que passam horas a fio na frente do computador.

1) O senhor conhece alguém, ou já ouviu, que sofra de infoxicação?

Resp. – Sim, este é um mal que vai se tornando cada vez mais freqüente. Já atendi, por exemplo, uma jovem que passou 3 dias e 3 noites “plugada”, com privação de sono e alimentação. As conseqüências para a saúde só podem ser desastrosas. Não podemos negar que isso representa total submissão da liberdade pessoal a um desejo que se torna dominante. Sabe-se hoje que cerca de 10% dos que usam computadores, redes sociais, telefones celulares e equipamentos do gênero já estão ou se tornarão dependentes desses recursos tecnológicos.

2) Existem sintomas?

Resp. – Já se caracterizou uma novo distúrbio da ansiedade, denominado nomofobia, expressão derivada do inglês “no mobile”. Tal diagnóstico se aplica a pessoas que ficam desesperadas quando em situações nas quais não têm disponível algum dispositivo de comunicação. O uso de tais recursos torna-se compulsivo, numa verdadeira escravidão a tecnologia. O apelo é tão forte que se sobrepõe aos relacionamentos pessoais, as tarefas de trabalho e as próprias necessidades fisiológicas.


3) Qual a melhor forma de tratamento?

Resp. – Como acontece em situações semelhantes, o primeiro grande passo é a tomada de consciência da real situação. A tendência geral é que a pessoa negue a sua condição de dependência, iludindo-se pensando que tem domínio, que tudo faz porque assim prefere, que pode mudar o comportamento se assim o desejar. Sabe-se que isso é uma negação que só serve para retardar a busca por mudanças. Grupos de ajuda mútua, entre pessoas que experimentam esta ou outras formas de dependência, mostram-se muito efetivos. Psicoterapia pode ser necessária e até recursos psiquiátricos. O aconselhamento, especialmente aquele de base cristã, pode apontar outros interesses e motivações, estimulando escolhas mais sábias para a vida.

4) E para quem é viciado em internet, podemos falar que isso está relacionado a algum distúrbio mental?

Resp. – Trata-se, antes de tudo, de uma patologia da liberdade, daquelas condições que nos tornam menos humanos. Não podemos negar que este é um das contradições trazidos pela Modernidade e que expressa muito bem a miserabilidade da condição humana: tudo que se conquista e serve de benefício para a Humanidade, acaba sendo usado de forma nociva e prejudicial. Vale lembrar o alerta que desde o princípio receberam nossos ancestrais: “O teu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo” (Gênesis 4.7).

5) Tenho um sobrinho de apenas 3 aninhos que nem foi alfabetizado e já sabe entrar na internet e procurar os jogos e desenhos que gosta. Minha irmã estipulou dia e hora para ele navegar. Essa é uma boa saída para os pais?

Resp. – Sim. Por um lado, não se pode viver sem dominar os recursos da tecnologia. Por outro, cabe aos pais estipular limites, acompanhar cada passo dos filhos, discutir com eles os conteúdos que estão acessando, sempre apontando princípios sólidos e norteadores para a vida. As crianças e adolescentes têm como direito fundamental contar com pais presentes e vigilantes, que os eduquem para o bom uso dos recursos que têm a mão.

6) Conheço um jovem de 24 anos que não trabalha, não estuda e fica em média 8h no computador. É normal virar a noite diante da tela falando com os amigos, paquerando, vendo vídeos. Nesse caso, o que a pessoa deve fazer?

Resp. – Um dos sintomas da dependência da tecnologia é exatamente essa preferência absoluta pelo consumo da mesma, mesmo em detrimento de outros interesses e necessidades. Tomar consciência da situação, desejar mudar e buscar ajuda são os passos a seguir.


Uriel Heckert – Médico psiquiatra. Doutor em Psiquiatria pela USP. Mestre em Filosofia pela UFJF. Professor Adjunto de Psiquiatria da UFJF. Membro Pleno do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos.

Agosto de 2011

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